terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Problemas Operacionais

Se por um lado o transporte carioca tem sensíveis melhorias com a implantação dos corredores BRS, na parte operacional ainda há muito a ser feito... Seguem-se algumas situações que observei ao andar por algumas linhas da cidade.
 
Partidas mal programadas – A linha 110 Rodoviária-Jardim de Alah (via Túnel Rebouças) foi a primeira que peguei logo que cheguei ao Rio. Era por volta de 6h10 da manhã. Vários carros da linha estavam estacionados na plataforma do Terminal ao lado da Rodoviária Novo Rio e nos arredores. O primeiro carro, que saiu logo que cheguei, partiu lotado. Fiquei a espera do próximo. Passaram-se mais de dez minutos e, mesmo com quatro carros na espera e uma fila razoável, o fiscal demorou pra soltar o próximo carro.

Quando por fim o carro da vez é liberado, um passageiro questiona o cobrador sobre o porquê de um intervalo tão grande com tantos carros no ponto. Ele diz que não sabe, mas que achava estranho um intervalo tão grande pra uma linha que estava com quatro carros no ponto final desde que ele havia chegado.

No segundo ponto da linha, o ônibus, um Marcopolo Torino, empaca. O intervalo foi tão grande – pros padrões da linha – que acumulou um grande número de passageiros, o que tornou a viagem bem mais longa pra quem pegou no ponto final. No meio do caminho, o ônibus de trás ultrapassa o que eu estava. Detalhe: estava bem mais vazio. Provavelmente saiu pouco depois do nosso.
 
Péssima Conservação – Na volta da região do Recreio dos Bandeirantes, peguei a linha 360 Carioca-Recreio, da Expresso Pegaso. Aliás, confesso que é a minha linha favorita. O trajeto dela é bem legal. Sai do centro do Rio de Janeiro, passa por vias beira-mar, pega a Avenida Niemeyer, avenida com faixa simples e que tem uma ótima vista para o mar. Depois, segue pela Avenida das Américas e, por fim, Recreio dos Bandeirantes. O problema é a qualidade dos ônibus dessa linha.

Os ônibus da 360 são ruins demais. Apesar de serem semi-novos – Apaches Vip II Volks 17-230EOD, alguns até com V-Tronic – a maioria está em péssimo estado de conservação. Bate tudo: bancos, portas, caixas onde ficam os mecanismo das portas, catraca... Um barulho irritante. Fora os bancos, com aqueles revestimentos cinza da Caio, que já estão mais do que encardidos. E, pra piorar, os vândalos pixam até o alto das paredes traseiras dos ônibus. Bizarro.
 
Falta de Informação – A tarde, peguei a linha 523 Leblon-Alvorada, da Translitorânea. O carro da linha era um dos NeoBus Mega BRS, chassi Scania K230. O carro é muito bom. Silencioso e confortável. O lado ruim foi a própria linha onde ele estava. A 523 tem um belo trajeto. Mas o intervalo é terrível.

Cheguei ao Terminal Alvorada por volta das 15h30. Minha intenção era pegar a mesma linha pra voltar. Então, esperei... esperei... e esperei. Por volta das 17h00 nenhum carro depois do que havia me trazido havia passado. Já a linha 524 Botafogo-Barra da Tijuca, que também faz ponto final no Terminal Alvorada, passou com intervalos medianos. Nessa hora e meia de espera, uns quatro ônibus da 524 haviam passado.

Antes de ir embora, fui conversar com o fiscal da Translitorânea. Ele me informou que, aos sábados, os intervalos são longos mesmo devido à frota reduzida. Aliás, a linha já tem uma frota bem enxuta. Vendo uma tabela horária fixada em uma das guaritas dos fiscais, a 524 tem quase três vezes mais carros que a 523, embora os trajeto não seja tão curto. Ao menos poderia existir nos pontos terminais uma tabela horária com os intervalos aproximados das partidas. Aliás, essa linha é uma exceção dentre as várias linhas cariocas, que tem a frequência como sua maior virtude.

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Problemas como esses, o transporte por ônibus da grande maioria das cidades do país possuem. O que talvez não tenham é a motivação para resolvê-los. Um sistema de transporte por ônibus mais moderno e eficiente talvez seja o maior legado que os eventos vindouros venham a deixar na capital fluminense.

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Texto publicado originalmente na coluna "Circulando" na Revista InterBuss nº 75, de 21/12/2011.

3 comentários:

  1. Muito bacana ler esse relato de alguém de fora sobre o transporte carioca. Relato bastante acertado, por sinal. Em geral, é um sistema que se vale da frequência de suas linhas mais do que de sua organização, limpeza e praticidade.
    Aproveito para comentar sobre as três linhas que foram relatadas:
    - A 110 é uma linha com movimento bastante intenso no horário de pico, e que tradicionalmente circula com carros lotados e muito frequentes, que correm um bocado e pulam uns aos outros o tempo todo.
    - Já viajei em carro da 360 com assento faltando. O trajeto é realmente lindo, mas desde já você está convidado a passear em outras linhas emblemáticas da Pégaso, como a 366 (Expresso) ou na 398 (Parador), entre a Praça Tiradentes e Campo Grande.
    - Pasme, mas a 523 simplesmente não rodava até uns três meses atrás! Ela foi reativada com a chegada desses Mega BRS, carro que vem chamando a atenção do público.

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  2. Sem contar que no Rio vemos que o ônibus (ainda) é o principal meio de transporte. As linhas de trem e metrô, privadas, estão subdimensionadas tanto em extensão (poderiam abranger muito mais bairros da cidade) quanto em frota nas linhas existentes (o sistema vive de promessas de trens que um dia chegarão do outro lado do mundo). A (super)lotação e o descaso é tão grande que foi criada uma lei impedindo homens de viajar em 25% dos vagões existentes na hora do rush, para evitar constrangimentos com mulheres - ao invés de se fazer o certo, que é trazer novas composições e eliminar a superlotação.
    Carente de trilhos e de transporte de grande capacidade, o Rio agora embarca na onda do BRT. Ajuda, mas temo que eles já comecem a rodar no ponto de saturação de suas demandas. Espero estar enganado...

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  3. Excelente postagem José! Mesmo que nunca tenha ido ao RJ, essa é a impressão que o transporte de lá nos passa: uma certa desorganização e um padrão de conservação da frota questionável.

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